O ex-vice-prefeito de Ibitirama, Célio Martins Morales, vai a júri popular pelo assassinato da esposa, Vanuza Spala de Almeida, de 41 anos. A decisão foi mantida pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), que negou os recursos da defesa e confirmou a decisão do Juízo da Vara Única de Ibitirama, que já havia encaminhado o réu ao banco dos réus pelo crime de feminicídio, além dos crimes de porte ilegal de arma e fraude processual.
O crime aconteceu em abril de 2023, na residência do casal, na zona rural do município, e gerou forte comoção no Espírito Santo. Segundo o Ministério Público do Espírito Santo (MPES), Morales teria cometido o homicídio por “sentimento egoístico de posse” e “ciúmes da vítima”, o que caracterizaria motivação torpe e reforça a tipificação como feminicídio, homicídio cometido por razões da condição de gênero.
A decisão do TJES foi publicada no último dia 29 de maio. A relatora do caso, desembargadora Rachel Durão Correia Lima, rejeitou os argumentos da defesa, que alegava irregularidades processuais e solicitava novas perícias. A magistrada considerou os pedidos “meramente protelatórios” e destacou que há “prova nos autos que apontam que o local do crime foi possivelmente alterado”, o que sustenta também a denúncia por fraude processual.
Além disso, a defesa de Morales tentou obter absolvição sumária para os crimes de porte ilegal de arma e alteração da cena do crime, o que também foi negado. A relatora afirmou que há elementos suficientes para que todas as acusações sejam analisadas pelo Tribunal do Júri.
A tentativa de fuga e o indiciamento por feminicídio
Após o crime, Morales chegou a fugir e permaneceu foragido por mais de uma semana. Ele foi localizado no estado de Goiás e se entregou à Polícia Civil no dia 19 de abril de 2023, acompanhado de seu advogado. Durante o interrogatório, preferiu se manter em silêncio.
Na época da prisão, o delegado responsável pelo caso, Tiago Dorneles, afirmou: “Já vínhamos fazendo levantamentos a cerca de seu paradeiro e em contato com o advogado combinamos hoje sua apresentação na delegacia. Agora nós temos um prazo de 10 dias para acabar as diligências faltantes do inquérito e encaminhar ao Ministério Público e posteriormente à Justiça no qual será submetido a julgamento no Tribunal do Júri possivelmente.”
Ainda segundo Dorneles, o indiciamento por feminicídio é sustentado por laudos técnicos: “A polícia sustenta o indiciamento do Célio pelo crime de feminicídio com a pena de 12 a 30 anos. O laudo pericial do médico legista constatou que não houve indicativo de tiro à curta distância. Quando isso acontece existe uma orla de chamuscamento, uma queimadura, que não foi encontrada no ferimento da vítima e isso indica que o tiro não foi efetuado à curta distância, afastando a princípio a tese de suicídio.”
Desde então, o ex-vice-prefeito está detido no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Marataízes, onde aguarda a definição da data para seu julgamento.
Relembre o caso
Vanuza Spala de Almeida, de 41 anos, foi encontrada morta com um tiro no peito no banheiro da casa onde morava com o marido, Célio Martins Morales, ex-vice-prefeito de Ibitirama, no Sul do Espírito Santo. O crime ocorreu na madrugada do dia 9 de abril de 2023, e desde o início a versão de suicídio apresentada por Morales levantou dúvidas entre os investigadores e a própria família da vítima.
A Polícia Civil descartou a hipótese de suicídio com base no laudo pericial, que indicou ausência de marcas de disparo à curta distância, sinal típico quando há autoextermínio com arma de fogo. Segundo o delegado responsável pelo caso, Tiago Dorneles, essa ausência apontava para um tiro disparado de longe, “afastando, a princípio, a tese de suicídio”.
Além disso, o comportamento do então viúvo gerou mais suspeitas: antes mesmo de ser decretada sua prisão, Morales chegou a se apresentar à delegacia com um advogado, mas ficou em silêncio e foi liberado por ainda não haver mandado contra ele. No dia seguinte, com a prisão decretada pela Justiça, ele fugiu e ficou foragido por mais de uma semana até se entregar em Goiás, no dia 19 de abril.
Para a família de Vanuza, não há dúvidas de que ela era vítima de um relacionamento abusivo. A irmã, Vanessa Spala, relatou que a vítima tentava se separar, mas era impedida: “Ela tentou várias vezes vir embora, ele vinha e buscava ela. Ligava pra cá chorando e gritando que não estava aguentando mais”. Em entrevistas, Vanessa contou ainda que Morales costumava deixar uma arma sobre a mesa da casa para intimidar a esposa, inclusive durante as tarefas domésticas.
Outro ponto sensível para a família é o sonho interrompido de Vanuza: ela desejava ser mãe e estava fazendo tratamento para engravidar, mas o marido se recusava a ter filhos com ela. “Ela sofria com isso. O único sonho que ela tinha era de ser mãe”, disse a irmã.
Desde o crime, a mãe de Vanuza, Nilda Spala, relata que vive em estado permanente de luto ao lado do marido. “Nossa vida agora é chorar a noite inteira e o dia todo. Tem sido muito difícil. A cachorrinha dela tá sofrendo aqui. Ele [o pai de Vanuza] chora muito”, desabafou.
Morales segue preso preventivamente desde então. O julgamento no Tribunal do Júri será a próxima etapa do processo que busca responsabilizá-lo pelo assassinato. Para a família de Vanuza, é uma esperança de justiça após mais de dois anos de dor.
Fonte: Espírito Santo Notícias


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